Entradas do Novembro 2008

Novembro 27, 2008 · Deixe um comentário

Viajei para Zimbros sexta feira, e de lá gostaria de ter voltado domingo pela madrugada, quando soube dos estragos da chuva. Porém a br estava interditada e a interpraias também. Ficamos sem televisão, sem telefone e somente alguns celulares funcionavam. Buscávamos notícias num radinho AM. Consegui voltar domingo as 16hr. Cheguei, e fui direto até o prédio do antigo fórum de balneário. De lá, andei até o colégio João Goulart, que é o centro de distribuição e arrecadamento. Lá, convoquei os membros do meu LEO clube e do meu capítulo Demolay. Ajudei muito, carregando mantimentos e roupas. Inclusive aranhei meus braços carregando centenas de caixas de leite. A população de BC participou e doou em peso. Fui levado pela prefeitura para vários lugares, sempre carregando mantimentos. No outro dia ajudei no João Goulart pela manhã e pela tarde me apresentei ao corpo de bombeiros de itajaí. Um senhor que trabalhou como bombeiro voluntário em 84 me levou até lá. Pediu que eu já fosse com roupa de borracha. Chegando no corpo de bombeiros, me alistei e esperei eles me chamarem. Me guarneceram como guia para os bombeiros de curitiba que tinham chego aquela tarde. Porém, faltavam barcos. Na capital pesqueira de santa catarina faltavam barcos! Lembro que tinha um barco com o hélice quebrada e que queriam cobrar 200 reais para arrumar. O civil dono do barco colocou ele no meio do quartel e ficou sentado esperando. Os bombeiros de curitiba, depois me deixarem esperando, me dispensaram. Me inscrevi noutra guarnição. Comi um lanche no quartel. Conversei com um senhor que dormiu numa cadeira com água no peito. Ele acordava cada vez que adormecia por caía com a cabeça dentro da água. Lembro que ele dizia: “lepstopirose? eu perdi tudo, voce acha que eu me preocupo com essas doenças?” Esperei muito até liberarem um barco, assim sendo fui mandado para o bairro Dom Bosco. De lá saí de barco para fazer resgate de uma família. Minha guarnição era formada por João, um bombeiro militar, por mim e por um morador da região que ia de guia na proa do barco de alumínio. Navegamos muito tempo até chegar no condomínio onde estava a família. Pelo caminho, chorei um pouco, pois via a água chegando no segundo andar das casas. É estranho estar acostumado a andar de carro pelas ruas, e de repende passar vagarosamente por elas numa água marrom-escuro. Passávamos gritando: “quer sair?” mas ninguém queria, era o medo dos saques. Chegando até a família, invadimos uma casa vizinha e pegamos uma escada grande, pois a mulher estava grávida. Apoiamos a escada no barco, e o barco numa cerca elétrica. Sentimos um cheiro forte de gás. O primeiro a descer foi um menino de uns 10 anos, gordo e medroso. Depois desceu a senhora gestante, também gorda. Depois o pai jogou umas 6 caixas de leite para o barco e desceu. Já no barco lembrou de fechar a janela, recolocamos a escada e ele subiu para fechar, com medo da chuva e dos roubos. Manobramos e entregamos as caixas de leite para uns vizinhos. Um vizinho, idoso, não conseguia descer para o barco, então deixamos ele lá. Já estávamos frios com o sofrimento No caminho uma bateira começou a brigar conosco e quase invadiram o barco dos bombeiros, pois queriam água potável. Começamos uma discussão quase violenta, que foi apartada pela mulher grávida. Os barcos se chocaram violentamente, por culpa nossa. Os homens da bateira queriam nos bater com uns paus que usavam de remo. Mas eu pedi desculpas, e disse que foi sem querer, mesmo com razão. Navegamos mais um tempo a procura de uma senhora. A casa dela só tinha um andar, nós chamamos e gritamos, mas ninguem respondeu, pensei que ela tinha morrido. Quando já íamos embora a velhinha apareceu numa janela de um andar mais alto, mas que fazia água, e disse que não queria mais sair. Fomos embora já escurecendo, e as pessoas andavam nas casas com velas nas mãos. Um perigo, pois o cheiro de gás vazante estava em tudo. Nos andares superiores, viamos dezenas de pesoas encolhidas, gritando por comida e água. A maioria dizia: “tem criança com fome”. Chegamos no parque Dom Bosco e desembarcamos a família, tive que levar o menino no colo até o seco. Eu me propus a fazê-lo, pois ainda tinha ânimo. Em terra firme, mais discussões sobre comida. Soubemos que uma menina de 9 anos havia morrido de enfarte. Soubemos que a outra guarnição havia sido sequestrada a mão armada para roubar comida. Soubemos que nem nos alojamentos havia comida. Soubemos que estavam vendendo comida e água a preços absurdos. Soube que os mercados haviam trancado as portas ao invés de doar todo o estoque, como fizeram a maioria dos mercados em BC. Concordei com o saque. Liguei para meu pai, pois os bombeiros não tinham lanternas. Comi na viatura dos bombeiros. Fui obrigado a comer pizza com carne. No desespero a gente perde os princípios. Depois de algum tempo, meu pai trouxe uma caixa com 30 lanternas que ele conseguiu. As lanchas eram da marina Tedesco, e mesquinhamente, os representantes da marina não deixavam mais as lanchas saírem. Porém, eles concordaram em usarmos os barcos mais uma vez para socorrer os abrigados numa escola que estava enchendo. Quando dei por mim, meu barco estava indo noutra direção. Descobrimos que fomos sutilmente “sequestrados” para “ver como que tá minha mãe”. Mãe de 3 moradores que estavam no barco. Como estavámos só em 2 bombeiros no barco, e nenhum militar, fomos de bico calado. No caminho, passamos pelo depósito de dinheiro da sadia, onde alguns funcionários tentaram invadir. A mãe dos 3 estava bem. O motor do barco morreu, e eu tive que dar a partida, pois o piloto não sabia. Quando voltávamos ouvimos uns gritos bem longe. Fomos até os gritos e encontramos dois homens com água no umbigo. Um deles queria ver o pai que estava no Hospital Marieta. Colocamos ele no barco, e aconselhei o outro a sair da água. O homem que embarcou estava em visível estado de choque. Tremia e tinha espasmos musculares. Já nem me importava mais, era só mais um sofrendo. Ele pegou o remo e começou a atrapalhar o piloto (que nem era piloto),tentando ajudar. Mandei ele largar o remo, pois estava atrapalhando. Fui grosso. O pai do rapaz tinha tido um enfarto. No caminho de volta, tentamos rebocar uma bateira que tinha uma mulher e dois homens, mas a correnteza era tão grande que não conseguimos, eles saíram remando e nós seguimos nosso rumo. Voltamos para o Dom Bosco, peguei uma lanterna e com um amigo até o prédio dele andando com água na cintura. Voltei para casa, não comi nem dormi direito. No outro dia cedo fui até o posto municipal e tomei uma vacina anti-tétano, pois tenho um corte no pé. Fui aconselhado a tomar cuidado com os sintomas de leptospirose e hepatite B. Meus companheiros foram para itajaí, mas eu fiquei em casa. Devia repousar Pela tarde ajudei no joão Goulart. Dormi melhor. No outro dia, fui pela manhã tirar a lama da casa de um LEO. Ele mora nos Municípios em BC. A água já tinha baixado ali. Estavam todos os móveis de quase todos os moradores jogados na rua, tudo podre. Baratas vivas, ratos e cachorros mortos. Voltei para casa. Ajudei no João Goulart. No outro dia, me vesti para salvamento e ajudei uns amigos. Passei de carro por vários locias de Itajaí. Vi o saque ao supermercado Maxxi. Fui até o quartel dos bombeiros e fui dispensado, pois só ia para Luiz Alves os bombeiros especializados. E em itajaí só retiravam corpos. Peguei carona e fui até o pavilhão da marejada, fui dispensado também pela defesa civil. Estava aliviado e me sentia culpado por isso. Hoje vou ajudar na remoção dos móveis e na limpeza no bairro que nadei com água acima da cabeça.

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